Estuprador, pedófilo e incestuoso.
Esse era meu cliente.
Minha missão: tirá-lo do regime fechado, ao qual tinha sido condenado por um crime que confessou ter cometido.
Contei aos meus amigos, aos meus colegas, conhecidos, família, que tinha pegado esse caso pro bono e que tinha resolvido lutar pelos seus direitos. Tudo o que ouvi, de todas essas pessoas, foi: “Esse cara tem que ficar lá. Não faz nada não”, “Um cara desses tinha que morrer!!”, “Espero que você consiga dormir!”, ” Eu pagava alguém pra matar um cara desses na cadeia”… e assim por diante…
Eu sei que é difícil entender o papel de um advogado. Mas é isso o que faz a profissão ser, na minha opinião, a mais importante da sociedade. Claro, serei apedrejado por isso.
Sei que todas profissões são essenciais. Não é o contrário disso que quero dizer.
Explico.
É fácil entender um médico (ou qualquer profissional da saúde), cuja obrigação é salvar vidas ou manter pessoas saudáveis; entender um engenheiro que constrói lares, ou desenvolve tecnologias que beneficiam toda a sociedade. É fácil perceber que o assistente social e o pastor/padre/monge, que ajudam pessoas carentes, fazem o que é certo. É muito fácil.
Por isso – por ser tão difícil de entender -, defender uma pessoa culpada, alguém que não tem razão, ou mesmo quem não tem ninguém para falar por ele é a função mais importante da sociedade. É a função do advogado.
E fazê-lo quando ninguém mais compreende o sentido de seus atos torna a profissão quase heroica, na qual a vitória basta por si só. Não é necessária nenhuma outra recompensa para o advogado realizar-se.
Nossa sociedade vem sendo levada a crer que os deliquentes têm de sofrer indefinidamente. Médicos assistem imóveis a supostos “ladrões” entrarem dilacerados em seus hospitais (no youtube há um monte de vídeos desses, sendo exibidos como se fossem troféus). Policiais, em seus cursos de treinamento, assistem a vídeos de ações da organização em que os suspeitos são mortos, torturados, ou mal-tratados, como se fosse algo trivial. A mídia anuncia que pessoas meramente suspeitas de algum delito são, na verdade, culpadas e que aqueles que os defendem tão culpadas quanto os primeiros. Tornou-se corriqueiro condenar uma pessoa sem ao menos dar a chance de ela se explicar, como se fazia na Idade Média.
A todas essas pessoas que pensam assim eu proponho um exercício de imaginação mais ou menos como o seguinte.
Imagine que um dia você sai de casa, por exemplo, para fazer algum exercício físico e não se preocupa muito com a aparência. Sai meio desleixado e desarrumado. Tinha acabado de chover e você, fazendo sua corridinha semanal escorrega e fica sujo. Não muito longe de você, há uma velhinha que esquece a bolsa dela num banco. Você pega a bolsa e corre em busca da dona para devolvê-la. Alguém o vê correndo, todo sujo e maltrapilho, carregando desesperado aquela bolsa e logo deduz que se trata de um assalto. E sai aos berros: “Pega ladrão!”. Você, sem entender muito, é derrubado a pauladas e cercado por um arrastão de “cidadãos de bem” que não lhe dão tempo para explicações. Você apanha até ficar inconsciente. Acorda no hospital. Lá os médicos já ouviram que você é “o assaltantezinho que foi pego a pauladas na rua”. Eles dão risada e resolvem o colocar lá embaixo na lista de prioridades. Os policiais chegam para investigar. Em certo momento, eles perguntam sua versão dos fatos. Dão risada. Todos já estão dizendo que você é um assaltante. Óbvio que você inventaria a clássica história do “eu só tava querendo ajudar”. Você insiste na sua versão e ganha uns “petelecos” por isso. Logo chegam os jornalistas. A manchete na página policial anuncia que foi feita a justiça: o assaltante foi pego no flagra e a população, eufórica, o linchou.
Percebeu? Nesse meio tempo, você foi julgado, condenado e submetido a uma pena. Tudo porque estava correndo pra ajudar aquela velhinha.
E ninguém lhe deu a chance de se explicar.
Nessa hora, você implorará por um advogado.
Só ele o ouvirá. Só ele lutará por você. É possível que ele não acredite na sua versão também. Mas, mesmo assim, estará lá, fazendo de tudo para que seus direitos sejam respeitados (vejam o filme “A Troca” que mostra exatamente isso na entrada triunfal do advogado da protagonista, interpretada por Angelina Jolie).
Você me dirá que a situação acima é muito improvável. E que quase ninguém é, verdadeiramente, inocente. Mesmo se isso fosse verdade – e não estou dizendo que é, porque a verdade é que nunca ouvimos falar dos casos dos inocentes, só dos “culpados” -, ainda assim, a profissão do advogado é ímpar, porque permite que aquele único inocente, entre os milhares de culpados, tenha seus direitos resguardados. E o risco de inocentar milhares de culpados vale a chance de fazer justiça a um inocente. Os culpados sempre terão uma nova oportunidade para serem julgados por outros crimes. Os inocentes, por outro lado, nunca terão a pena injusta retirada de seus ombros e consciência.
Naquela cadeia de pensamentos contaminados por uma mídia e uma cultura do imediatismo e da vingança, que só leva a injustiças (exemplo em que essa mentalidade medieval é colocada num pedestal está no filme “Busca Implacável“), é preciso alguém que acredite que TODO ser humano tem dignidade e merece ser ouvido; merece ter a oportunidade de se explicar; merece, se condenado, sair da prisão, uma vez cumprida sua pena; merece ter condições mínimas para viver, como um trabalho, comida, saúde, educação.
Até aquele meu cliente.
Estuprador, pedófilo e incestuoso.
Ele ligava quase todos os dias de dentro do presídio, implorando por ajuda. Todos sabemos o que é feito com estupradores na cadeia. Seu estado mental estava muito debilitado e já não falava coisa com coisa.
Apresentei meu pedido de habeas corpus (conhecido como o remédio heroico, entre os juristas) ao Tribunal. No julgamento, fiz sustentação oral (sem dúvida, um marco na minha carreira) e fui cumprimentado pelo Desembargador por minha conduta ética e lhana. Ao final, tive meu pedido negado, pois os Desembargadores acharam melhor aguardar uma reavaliação do caso, provocada pela impetração de meu HC. O juiz contra o qual este foi apresentado reavaliou a situação e, 10 dias depois do indeferimento no Tribunal, concedeu a meu cliente a progressão de regime, sendo determinada sua transferência a um estabelecimento adequado.
Alguém, enfim, ouviu os reclames do meu cliente. Seus direitos foram resguardados.
Não ganhei nada pelos meus serviços. Não ganhei agradecimentos. Fui quase xingado por alguns, sim. Mas tudo bem.
Venci.
E nenhuma outra recompensa era necessária.
