A nona arte

(não contém “spoilers” para quem não assistiu ao seriado “Lost” até o fim, mas quem não viu pode não entender tudo)

(Aperte play no vídeo antes de começar a ler)

Quando ainda vivia, Johann Sebastian Bach passou despercebido. Ninguém conhecia sua obra, a não ser alguns poucos que moravam na região em que o músico viveu. Era considerado um compositor antiquado e sem muita criatividade. Após a sua morte nada mudou. Senão, piorou: caiu no esquecimento. Aos poucos, um ou outro compositor tomava conhecimento de sua obra e a admirava, mas ninguém sabia quem era aquele tal alemão que viveu entre 1685 e 1750.

A música que você está ouvindo (aos teimosos ou desatentos que não clicaram no play nos vídeos acima, sinto muito), de autoria de Bach, é tida por uma das maiores obras-primas da história da Música. É a chamada “Chaconne” (BWV 1004), um conjunto de variações (uma técnica de composição que envolve alterações sobre um mesmo tema), considerado o maior existente, sendo o segundo maior as “Variações Goldberg”, também compostas por Bach. Segundo a Wikipedia, “muitos músicos são de opinião que, mesmo que Bach só tivesse composto estas duas peças, já mereceria ser considerado um dos maiores compositores de todos os tempos”.

Hoje, sabemos disso, mas Bach era desprezado em sua época. O maior gênio da Música foi apenas “mais um” em seu tempo.

Há duas semanas encerrou “mais um” seriado da TV americana, conhecido por “Lost”. Como participante há 5 anos desse fenômeno (comecei a assistir à série quando estava na segunda temporada), não poderia deixar de expressar algumas opiniões, ante a estarrecedora controvéria que a série causou e vem, ainda, causando.

“Lost” revolucionou o mundo da televisão – e isso não é controvérsia.

E não falo apenas da interface entre canais de comunicação que ela utilizou, possibilitando que os espectadores fossem muito além do episódio semanal, tanto por meio de livros, da internet (por meio de quase todo tipo de rede social), jogos, entre outros. Além disso, “Lost” também trouxe revolução no âmbito cultural, já que foi causa de um verdadeiro fórum internacional de debate.

Na época de Bach, a obra de um compositor mal podia ser divulgada além de sua região. Não havia gravação musical. Para ouvir música, as pessoas tinham de ir aos teatros ou à Igreja. O máximo que podia ser feito era escrever-se a música em um pedaço de papel com milhares de símbolos que, até hoje, dificilmente retratam a ideia real que uma Música tem de passar.

Atualmente, noutro extremo, até o mais ignóbil ser pode ser conhecido pelo mundo inteiro, simplesmente por sua exata condição de ignóbil. A internet possibilitou isso. Mas as mídias tradicionais ainda persistem, até porque elas possuem um certo filtro de que a rede mundial de computadores não dispõe: o poder econômico. A televisão é exemplo claro disso: aparece na telinha aquele que pode pagar por essa aparição, ou que pode gerar mais dinheiro com ela. E como se gera dinheiro com a TV? Simples: transmitindo ao povo aquilo que ele quer (é claro que falamos aqui dos canais mais populares. Sempre há algo mais elitizado, em que discussões filosóficas, históricas, religiosas, políticas e existenciais são debatidas).

Ao lado do cinema e da fotografia, consideradas, respectivamente a sétima e oitava artes por alguns, que se desenvolveram num mundo moderno, as outras mídias do século XX ficaram para trás. No intuito de auferir mais dinheiro, trazer “o que o povo gosta”, a televisão nunca, até hoje, tinha sido capaz de transmitir algo digno de ser chamado “obra de arte”.

É certo que muitos não gostaram, muitos não entenderam, muitos se decepcionaram, e muitos outros amaram o final de “Lost”.

A Arte é um campo do conhecimento humano dos mais antigos, permeado pelas sutilezas que fazem dele provavelmente o mais complexo ramo de atividades humanos, talvez porque aqui o subjetivo e o objetivo se imbricam de tal forma que nada tem explicação e, ao mesmo tempo, tudo é explicável.

Tal qual uma pintura de Michealangelo, em que uma imagem traz milhares de histórias, “Lost” – aproveitando-se das tecnologias modernas – trouxe milhares de histórias, a cada imagem, a cada diálogo, a cada gesto, som, música, clique na internet etc. A complexidade que a série alcançou, motivo das mais ferozes discussões, levando Filosofia, Religião, Ciência e – claro – Arte ao grande público, é o grande legado da série.

Sacrifício de Isaac, de Michelangelo Caravaggio

E o final da série não poderia deixar de ser menos apoteótico. A cena final encaixou-se como num deslize, lembrando-me dos “grand finales” das mais históricas sinfonias de Beethoven.

“Lost”, envolto por todas nuances do meio em que é transmitido – a televisão, com toda aquela guerra por poder econômico -, conseguiu imprimir as mesmas sutilezas que complexificam qualquer obra de arte. E mais, pôde ir além dos outros tipos de Arte.

As tradicionais espécies de arte – pintura, escultura, dança, teatro, música, literatura – e até as mais modernas – cinema, fotografia e muitas outras que conjugam todas essas citadas – são limitadas por dois fatores: a temporaliedade de apreciação (no caso de todas, exceto a literatura) e a dificuldade em sua difusão (no caso da literatura, principalmente, mas presente em todas outras). Até as mais longas obras cinematográficas devem ter um limite de tempo que não permite uma certa convivência do espectador com a obra. Noutro passo, até as mais simples obras literárias não podem alcançar todo o público, já estupefato de tanta informação.

O seriado de TV – e “Lost” explorou isso com maestria – não é assim. A difusão da obra é intensa e pode alcançar o mundo inteiro. E a temporaliedade quase que desvanece: no caso da série em questão, ela permitiu que nós, espectadores, convivêssemos por 6 anos com nossos personagens prediletos, conhecendo-os a fundo, forçando-nos a identificá-los como verdadeiros amigos nossos, ou, quando não gostávamos deles, a, pelo menos, compreendê-los.

E explorando esses aspectos, “Lost” fez Arte. E uma Arte única, nunca antes feita.

Se o Cinema é a sétima, e a fotografia, a oitava Arte, o Seriado televisivo, hoje, é a nona arte, sem dúvida. Tudo graças a “Lost”.

Por enquanto, podemos achar que é só “mais uma” série, tal qual as obras de Bach em seu tempo.

Quem compreendeu a série, ficou com um grande questionamento sobre si próprio a resolver. “Fico com os que gostaram ou com os que não gostaram?” “Sou um homem de fé ou da ciência?”

Mas quanto ao mérito do programa, não pode haver dúvidas. Ou você está entre os que contempla sua genialidade, ou está entre os que “ainda tem algumas coisas para resolver por aqui”, como disse Ben na sua cena final.

É uma questão de tempo. Tal qual foi para Bach.

Obs. 1: Não considero “Band of Brothers” nem “The Pacific”, superproduções de TV de Spielberg e Tom Hanks, como seriados de TV, mas sim como Cinema, cujos filmes foram divididos em capítulos de uma hora. Sem dúvida, são Arte também.

Obs.2: Imprescindível recomendar a leitura desse magnífico post sobre Lost.

12 comentário para este post.

  1. Poxa, belo texto, Basso! Genial mesmo! Concordo completamente!
    E obrigado pela elegantíssima citação!

    Responder

  2. [...] This post was mentioned on Twitter by Marcelo Salgado, Joaquim Basso. Joaquim Basso said: Agora, sim! Novo post no ar: http://ow.ly/1VewK Depender de twitter e publicação programada dá nisso… [...]

    Responder

  3. Publicado por Thiesa em junho 8, 2010 às 10:08 r r

    Obrigada, por mais um Post. Me sinto representada por suas palavras. A sutileza de seus comentários vão de encontro com a sensibilidade com que foi feito o último episódio, que, para mim, foi um presente aos fãs – embrulhado em laço de seda. Não me canso de ler sobre o assunto!

    Responder

    • Publicado por joaquimbasso em junho 8, 2010 às 18:26 r r

      Obrigado você, pela leitura e comentário! Muito me honra poder representá-la. Acho que você já pode ir pra “igreja”… não precisa ficar esperando “pra resolver algumas coisas”, se é que vc me entende…

      Responder

  4. Publicado por Pedro em julho 13, 2010 às 11:47 r r

    Acho que quem tá na batalha pra ser considerada a “nona arte” são os quadrinhos.. hehe.. a serie televisiva seria a decima arte huahuahua…
    eu sou do grupo que amou e odiou.. o final.. abraços

    Responder

    • Publicado por joaquimbasso em julho 13, 2010 às 11:56 r r

      Bom, espero que você não esteja ouvindo o LD sobre o final, porque ele demorou umas 2 semanas para entendê-lo.

      A respeito da “nona” arte, é só algo figurativo. Se você procurar, existem mais umas dez artes, tipo quadrinhos, publicidade, moda etc… No fundo, todas são misturas das originais seis artes. Quadrinho nada mais é do que pintura+literatura. Cinema é teatro+música+literatura+arquitetura(cenários) etc… Na verdade, numerar as artes é uma besteira. A atividade artística não tem limites… nem os matemáticos.

      Aproveito seu comentário, para esclarecer que meu post foi bastante hiperbólico ao comparar “Lost” com Bach. A contribuição deste para o mundo foi imensuravelmente maior, mas tudo é no intuito de provocar as convicções alheias.

      Valeu, Pedro, pelo comentário!

      Responder

  5. Publicado por Lucas Abdala em julho 27, 2010 às 12:56 r r

    Não é nenhuma novidade, mas além de gostar muito da maneira como trata dos assuntos, eu também concordo com grande parte de suas argumentações…em especial, a respeito do post “A nona arte”, devo dizer que este tipo de manifestação artística realmente parece ter sido inaugurado com “Lost”, e, para nós, que admiramos a arte desprendida de interesses financeiros, isto representou um sopro de ar mais do que necessário… (e olha que eu nem acompanhava a série direito…hehehe)

    Bom, eu falei td isso no parágrafo anterior pelo seguinte…eu não sei se vc já conhece, nem sequer se vai gostar, caso experimente… mas há pouco tempo atrás me deparei com um jogo independente que me causou uma impressão mto similar… seu nome é “Braid”, saiu p/ PC, xbox e ps3, se não me engano….podendo ser facilmente encontrados links p/ download. Ficar falando sobre ele só estragaria as surpresas das descobertas….mas é certo que, mesmo em seus aspectos superficiais, ele já chama bastante a atenção…tanto pela dinâmica qto pela dificuldade em si, e concluo dizendo que o autor compactua de uma idéia mto similar àquela que envolveu “Lost”, a de que sua criação deve primar por ser uma obra de arte e também que a mesma envolva diversas interpretações.
    Na internet existem diversas resenhas e reviews…mas vou deixar aqui o teaser do jogo…c tiver tempo, dê uma olhada:

    abraço!

    Responder

    • Publicado por joaquimbasso em julho 27, 2010 às 15:33 r r

      Muito obrigado, Lucas! Muito me honra tê-lo como leitor de meu blog e já estou de olho nesse jogo aí. Pareceu-me interessantíssimo. Abraço!

      Responder

  6. Publicado por Braiam Robson em agosto 8, 2010 às 13:03 r r

    Prezado Colega!
    Adorei o conteudo e analogia acima.

    Não posso deixar de transmitir o meu testemunho na convivencia desses 6 anos de lost.
    Sem duvida que vivemos Lost e nos identificamos com muitas situações vividas pela tripulação.
    Me encontro ainda sobre o forte impacto do ultimo episodio que acabei de assistir, e confesso-lhes que estou completamente emocionado, extasiado e adimirado!
    Adoro seriados, e nenhum de muitos que já assisti colocou-me em possição semelhente em relação aos aspéctos do cotidiano.
    Agradeço a vcê por criar espaço como este para falarmos e interagirmos sobre os mesmos aspectos.
    E obrigado a Direção, Elenco e toda equipe Lost, por nos proporcionar tantas emoções que sem duvidas ficarão conosco e nos auxiliarão a compreender o que pode significar “Seguir Adiante” dentro dos aspectos Morais e Espirituais.

    Lost merece ser se não a melhor! Uma das mehores series de todos os tempos.

    Abraço a todos e muita Paz,

    Responder

  7. [...] Mesmo porque essa fama é relativa, sofrendo variações com o decorrer do tempo (já contei aqui que quase ninguém conhecia Bach quando vivo e mesmo muitos anos depois de seu [...]

    Responder

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