Música pela Música: a arte pura e os ruídos

“Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: ‘meu filho!’,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”

(Língua portuguesa, de Olavo Bilac)

Olavo Bilac foi um dos mais ilustres representantes da escola literária chamada de Parnasianismo. A poesia acima representa bem aquela escola e é uma homenagem à língua portuguesa. Para aqueles que não se recordam das aulas de Literatura do Ensino Médio, refresco-lhes a memória. Na eterna lógica dialética que move o pensamento humano (de que já falei aqui), o Parnasianismo surgiu na segunda metade do século XIX como um movimento de contraposição ao ideal romântico que então imperava. No âmbito da literatura, alguns escritores estavam fatigados com o subjetivismo e a completa despreocupação com a estética clássica e as formas livres.

O movimento surge, assim, para resgatar uma concepção clássica, invocando temas universais, buscando conteúdo meramente descritivo e impessoal, em total oposição ao Romantismo. O lema do parnasiano é a “arte pela arte”, o que enseja o culto pela forma, pela estética, pelos sonetos com versos alexandrinos e decassílabos, fazendo do objetivo da obra artística a simples exposição do que consiste a própria arte, com todas suas regras, formas e peculiaridades.

Em suma, o Parnasianismo foi uma escola literária que resgatava o ideal de veneração, de constante aprimoramento e de desenvolvimento da arte, em contraposição a uma visão romântica que se voltava muito mais para o “eu”, para o subjetivismo, do que para o aspecto artístico em si da obra.

Triângulo da arte: minha humilde e simplificada ideia de o que seria a arte

E o que é Arte? Com certeza, uma resposta simplista não poderia ser dada, mesmo porque o conceito de Arte é eternamente volúvel. O que importa, nessa oportunidade, é a relação que a Arte significa. Toda manifestação artística é um ato que implica um relacionamento entre o autor (escritor, compositor de uma música, o roteirista de um filme ou o escritor de uma peça teatral e assim por diante) e uma plateia (que é a pessoa ou o grupo delas que aprecia a obra), relacionamento esse que ocorre por intermédio de uma obra artística (o quadro, a escultura, o filme, a música etc.), que por vezes necessita de um (ou mais) intérprete(s) para fazê-la real (diretores e atores do filme ou peça teatral, maestro e músicos da orquestra etc.). Estabelece-se, pois, uma relação quase que triangular, que pode ser representada na figura ao lado, em que todos os elementos ligam-se e fazem contato, comunicando sentimentos, racionalizações, mensagens, o que for…

Assim, sem autor, não há arte; sem obra, também não. Mas o que é mais importante: sem plateia também não existe arte (aqui a curiosa história do celular que interrompeu um concerto, comprovando o papel crucial da plateia em uma apresentação musical). Não adianta criar uma obra genial, se ninguém a conhece. Enquanto ninguém a conhecer, não há arte. Contudo, aqui cabe um parêntese: não há que se falar em nenhum tipo de relação entre o tamanho/qualidade da plateia e a qualidade da obra artística. Não é porque uma determinada obra é conhecida de todos (como as “Quatro Estações”, de Vivaldi) que a faz grandiosa. Mesmo porque essa fama é relativa, sofrendo variações com o decorrer do tempo (já contei aqui que quase ninguém conhecia Bach quando vivo e mesmo muitos anos depois de seu falecimento).

Há formas de artes que se apresentam de maneira estática, como uma pintura ou escultura, e outras que se apresentam de forma dinâmica, como uma música, dança, ou filme. Nesta última, a arte dinâmica, a imprescindibilidade de uma plateia apresenta-se notória, assim como a necessidade, em geral, de um intérprete da obra.

Note-se que as “categorias” artísticas não são sempre estanques, podendo – e não raro é o que ocorre – se interpenetrar e interagir, formando obras artísticas complexas. A dança, em geral, vem com a música. O cinema é teatro, música, arquitetura, entre outras tantas formas de arte. O teatro, da mesma forma, pode ser incrementado com música e dança. A música pode ser cantada e a ela incorporada uma poesia (a chamada letra da música) e assim por diante… Por outro lado, essas categorias podem se apresentar de forma pura, como em uma escultura, ou em uma tela de pintura, ou mesmo na apresentação de uma sinfonia instrumental por uma orquestra sinfônica.

Diante de tudo isso, o que proponho agora é algo para que possamos discutir música (ou, ouso arriscar, qualquer forma artística, ou conceito estético), de forma a fixarmos pontos de partida para uma adequada compreensão. Dizem que gosto não se discute, mas eu já afastei essa ideia desse blog em um dos primeiros posts. Penso que os gostos são discutíveis, sim, desde que se estabeleçam parâmetros estéticos e padrões de qualidade, ou seja, critérios definidos e preestabelecidos para uma discussão produtiva.

Comentarei a categoria artística da Música, que é aquela com que tenho uma maior afinidade – mas provavelmente tudo pode ser aplicado a outras categorias, com as devidas proporções.

O principal critério para discutir Música, na linha de raciocínio exposta, é analisá-la em sua forma pura. Nisso reside a principal diferença entre a perspectiva do leigo e a do estudioso da Música. E o que é apreciar uma música em sua forma pura?

Se você já assistiu a uma orquestra de grande porte em uma sala de tradição (por exemplo a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a OSESP, que se apresenta, em geral, na Sala São Paulo), você sabe do que estou falando. E não estou dizendo que você pode ver isso no Youtube ou em um vídeo qualquer. Tem de estar lá para saber.

Tudo ocorre antes do início da música. Você entra no local da apresentação, muitas outras pessoas entram, aos poucos se acomodando. No palco, alguns músicos já estão sentados, afinando instrumentos e também se acomodando. Então, entra o spalla (o primeiro violinista, representante da orquestra e um dos melhores músicos do grupo). Todos aplaudem. Os instrumentos são afinados em conjunto. Entra,  a seguir, o maestro. Todos aplaudem. E então, o mais belo acontece. Todas aquelas vozes, aquela agitação, sussurros, pigarros… tudo cessa. Silêncio absoluto. O propósito de todos torna-se único: música. Na sua forma mais pura. Nada mais. O triângulo da Arte toma forma. Autor, obra e plateia tornam-se um só.

“Ah, você quer dizer que só música clássica é música?!” Não, nada disso. Só estou dizendo que a maioria das outras formas de música – sejam elas consideradas boas, ou ruins – isto é, praticamente todas as músicas não eruditas, estão “contaminadas” por outras formas de arte, ou mesmo por meros ruídos à sua estética. Uma apresentação como a que descrevi é uma das poucas oportunidades em que a música é apresentada em sua forma pura.

O que são ruídos, então? Adotando-se como premissa a análise da arte em sua forma “pura”, podemos estabelecer que, quando entramos em contato com uma obra artística, podemos observar, de um lado, a arte pura em si e, de outro, se for o caso, tudo o que não for a arte pura. E isso só pode ser duas outras coisas: ou é um outro tipo de arte secundário, ou é ruído. Ruído, portanto, é tudo aquilo de não artístico que é perceptível quando entramos em contato com uma determinada obra de arte. É um acessório indesejado, é aquilo que incomoda, que atrapalha a percepção do principal (assim como o barulho atrapalha a audição da música).

Por exemplo, se vou a um show do U2, há a música que é tocada pelo quarteto, mas há muita coisa acontecendo ali que não tem nada a ver com música, na sua forma pura. Há outras formas de arte (a poesia das letras, a cenografia, artes visuais na iluminação e nos outros efeitos audiovisuais, a expressão facial e corporal como elementos teatrais) e também há ruídos (o Bono Vox beija alguém da plateia, pessoas conversando, brigas, paquera na plateia etc. – aqui você vê um pouco disso).

Outro tópico é a apreciação das grandes letras de música. “Nossa, aquela música do Legião Urbana tem 9 minutos! Uma letra fenomenal!”. Como diria um amigo meu, se quiser uma letra boa, compre um livro de poesias. A qualidade de uma música não tem nada a ver com a letra. Pegue a música do Renato Russo que tem 9 minutos e ao invés de cantar a letra, coloque uns “lá, lá, lá, lá” na melodia. Logo você vai perceber que a música é uma redundância sem fim, que se repete, sem nenhuma trégua, por quase dez minutos. Há métodos de tortura chinesa similares. A verdade é que o conteúdo musical dessa canção é muito pobre. Tem uma boa letra? Sim, mas eu preciso aguardar os 9 minutos da música para apreciar aquela bela letra? Não, basta lê-la. E isso não é música.

Note que isso não é uma questão de gosto, veja bem. Falo aqui de algo totalmente objetivo. Um professor de música com quem tive a honra de ter aula dizia algo mais ou menos assim: imagine Beethoven escrevendo a nona sinfonia. Tudo à mão, sem programas de computador ou qualquer tecnologia (a não ser a caneta e o papel, no máximo um piano), inúmeras notas e vozes, dezenas de instrumentos, um coral, solistas, todos juntos – e tudo na cabeça de um SURDO (pra quem não sabe, é isso mesmo: Beethoven estava surdo no final de sua vida). Ele escreve essa obra que está em sua cabeça no papel, após anos e anos de trabalho, e possibilita que tudo aquilo seja executado (não antes de muito ensaio e estudo de cada músico que comporá a orquestra a executar a peça). Parece trabalhoso, não? Não é admirável?

Agora, volte-se para qualquer música sertaneja, por exemplo, o grande sucesso do Michel Teló, com mais de 100 milhões de views no Youtube, assistido no mundo inteiro (nada contra, só cito como exemplo para o contraste ficar claro). Imagina quanto tempo foi necessário para compor aquela música (1 dia? 1 semana?), a complexidade das melodias, harmonias e ritmos, o arcabouço de tecnologia disponível para executar, gravar e difundir a obra. E eu estou falando só da música, veja bem, nada de analisar a letra ou a coreografia. E aí? Tem diferença?

Qual das duas você acha que dão um maior “peso” para o conceito de “obra artística”?

É perfeitamente compreensível que você goste da música por causa da letra dela, ou por causa da coreografia ou do tipo de dança que ela enseja, ou mesmo porque ela toca na novela ou em um filme. As “categorias” de arte, nesses casos, imiscuem-se e nada mais natural que passemos a apreciar aquilo que compreendemos mais. Por exemplo, se não entendemos nada de música, podemos gostar dela porque a canção tem uma letra que nos agrada. Só é preciso notar uma coisa: gostar da música é diferente de gostar da letra, da coreografia, ou do filme em que ela toca.

O que não é compreensível, contudo, é como as pessoas passam a gostar mais e mais das músicas pelos ruídos que vêm a elas atrelados. Por exemplo, há quem goste de sertanejo porque o público ouvinte tem mais mulheres. Ou então aquelas fãs de Justin Bieber que não fazem a menor ideia do conteúdo de suas músicas, mas gostam dele porque ele é “bonitinho”.

Enfim, vamos resumir toda essa baderna.

Música é uma coisa. A letra da música, a beleza das mulheres ou homens que gostam e interpretam a música, a quantidade de cerveja que ela vende na balada, se anima a gurizada ou não, são outras coisas. Então, pense se você realmente gosta das músicas que você diz gostar, ou você só está apreciando ruídos – que nada mais são do que penduricalhos, acessórios que atrapalham e perturbam a apreciação do principal.

De vez em quando, é bom resgatar o Parnasianismo em nossas vidas. Apreciemos a Arte pela própria Arte! Apreciemos nosso trabalho, por ele próprio nos dar prazer (não pelo salário ou pelas férias e tempo livre que ele proporciona); nossos amigos pelo que são, não pelo que não nos incomodam; nossa vida pela vida, não pela ausência de morte.

E Música pela Música. Não pelos ruídos.

3 comentário para este post.

  1. Publicado por pedro em janeiro 13, 2012 às 13:14 r r

    Qual é sua opinião sobre aquela peça polemica daquele cara que senta no piano e nao toca nada por alguns minutos!? é musica? não é? porque?

    Responder

    • Publicado por joaquimbasso em janeiro 13, 2012 às 18:01 r r

      Essa peça é do John Cage. Meu, olha na versão orquestrada aqui e me responda você mesmo: http://www.youtube.com/watch?v=hUJagb7hL0E
      Pra mim, está muito claro que isso é pura arte. Música mesmo. O que não é música senão conjunto de momentos de tensão e de relaxamento? Esse silêncio absoluto é uma tensão desgraçada. Dá pra “ouvir” e “sentir” várias coisas nesse tempo. É arte e arte, para mim, totalmente genial! Observe também como também aqui pode ser aplicado o conceito de “ruído”, as pessoas que tossem no meio do silêncio “atrapalham” a execução da música… Enfim, John Cage pegou a pausa – que nada mais é do que um elemento musical – e a transformou no elemento principal, quando antes era mero coadjuvante. Absolutamente genial.

      Responder

  2. Mais uma vez, um ótimo post! Mas tenho alguns pontos a discutir: primeiro, acho que o gráfico do triângulo seria melhor representado assim http://img12.imageshack.us/img12/1936/triangulocomparativo.png , uma vez que quem produz a arte é o autor, levando-a no mesmo plano em que está a plateia, onde esta fecha o ciclo dando o retorno para o autor; segundo, Beethoven ficou surdo (não nasceu surdo), e foi um grande virtuoso que cultivou um poderoso ouvido interno incapaz de ser afetado por qualquer surdez – o que se tem para elogiar é a will power dele que não o desanimou com tal tragédia (um músico ficando surdo!) e mesmo assim compôs sua nona sinfonia, mesmo não podendo escutá-la de forma passiva (através da orquestra) e não só ativa (através de seu ouvido interno). A maestria de Beethoven não estava atrelada ao escutar, graças à exclusividade da partitura da época, bastava-lhe o conhecimento teórico, estrutural e harmônico – que surdo e não surdo, com instrumento ou sem instrumento ele nos brindaria com uma nona sinfonia de acordo com seu prodígio conhecimento da música!
    Gosto de apreciar a música pela música considerando estas três formas:

    1ª pela forma física, onde perscruto as maneiras pelas quais os objetos vibram para por os sons no ar;

    2ª pela fisiologia, onde estou interessado no modo com que nossos ouvidos convertem estas vibrações em impulsos nervosos; e

    3ª pela psicologia, que me motiva perseguir estes impulsos até o cérebro na tentativa de descobrir como nossas mentes reagem a eles.

    Responder

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