Posts Tagged ‘horário de verão’

Confuso horário

Nesse fim de semana terminou o horário de verão. Em Mato Grosso do Sul, diminuímos uma hora no relógio e mantivemo-nos no fuso horário UTC -4, isto é, uma hora a menos em relação ao horário de Brasília (UTC -3).

Evidencia-se cada vez mais um debate, cuja primeira controvérsia é sua relevância: trata-se da possibilidade de modificação do fuso horário em nosso estado, equiparando-o ao horário de Brasília.

Todo tipo de argumentação é levantada tanto a favor quanto contrária à mudança do fuso horário. Motivos econômicos, políticos, psicológicos, biológicos e geográficos são despejados por todo tribuno que resolve defender a causa.

Poderia eu tomar o mesmo rumo, mas não acho necessário. Prefiro estabelecer algumas premissas, fora das quais qualquer argumentação acerca do assunto mostra-se falaciosa.

A premissa fundamental para a discussão em apreço é a de que somente com alicerce no fundamento da criação dos fusos horários é que se pode discutir sua modificação. Noutras palavras, os fusos horários foram estabelecidos por uma razão. Somente por essa mesma razão podemos modificá-los, pois, do contrário, estaríamos desvirtuando a finalidade da diferença de horários, que, em última instância, é o bem-estar da sociedade.

O fundamento do estabelecimento de horários diferenciados para diversos locais do planeta é trivial: é o movimento da Terra.

É questão meramente geográfica e como tal deve ser tratada. Todos sabemos que o sol não nasce nem se põe ao mesmo tempo em todos os locais do mundo. Isso se deve, obviamente, ao movimento de rotação da Terra. No entanto, não é só a rotação que influi no período iluminado de cada localidade. Existem diversos outros movimentos e disposições geográficas responsáveis por essas diferenças.

Ainda, é indubitável: o conforto que se busca com o estabelecimento de zonas de horários (ou fusos horários) tem ligação direta com a saúde humana. Ora, é lógico e cientificamente comprovado que o trabalho noturno é mais desgastante e prejudicial à saúde do que o diurno. O objetivo primordial do fuso horário é, portanto, estabelecer um horário em que a grande maioria das pessoas possa trabalhar, estudar ou realizar suas atividades em geral durante o período iluminado do dia, deixando a noite para o descanso, momento em que este é muito mais proveitoso.

Assim sendo, não são relevantes discussões acerca do aumento de renda das empresas, horário de funcionamento de bancos (e o consequente proveito que teriam os “grandes empresários” em razão disso, um argumento completamente sem sentido, diga-se de passagem), que partido político é a favor ou contra, ou mesmo se no Acre as pessoas gostaram da mudança de horário ou não (a região é completamente diferente!). Pouco importam essas questões para se definir se o fuso horário deve ou não ser modificado. Só um ponto é decisivo: qual o horário que, no Mato Grosso do Sul, seria mais benéfico à saúde da população? Para discutir isso, é preciso, inarredavelmente, apreciar questões sobre a localização geográfica de nosso estado. Nada mais.

Da forma o mais sucinta possível, tentarei responder a isso (deixo complementações para os comentários – por favor, os heróis que conseguirem ler isso por inteiro, comentem!).

O horário ideal, se pudéssemos escolher, deveria ser algo mais ou menos assim: o sol nasceria na hora em que temos de acordar para nossas atividades; estaria no seu ponto máximo ao meio-dia; e por-se-ia após o fim do expediente de trabalho.

Com isso em mente é que se propõe a análise da seguinte tabela (de minha autoria com dados dessa fonte), que indica os horários do nascer e ocaso do sol no dia mais longo (solstício de verão), noite mais longa (solstício de inverno) e os dias de mesma duração que a noite (equinócios) em relação ao ano de 2008, em diferentes localidades do país (as horas apresentadas não consideram o horário de verão):

Tabela ocaso e nascer do sol

O interessante a se notar na tabela é que Campo Grande amanhece de 21 a 34 minutos antes que São Paulo. Em relação a Brasília, a diferença é de 24 a 42 minutos. Já em relação a Belém (capital do estado que, antes de 24 de abril de 2008, tinha dois fusos horários e agora tem apenas um, idêntico ao de Brasília), a diferença chega a 1:22h no solstício de verão. E mais: nenhuma dessas cidades tem o pôr-do-sol antes das 18h (exceto nos dias mais curtos do ano, em Brasília e São Paulo – mas, mesmo naquelas datas, o sol não se põe tão cedo como em Campo Grande).

A discussão sobre a tabela poderia se estender por linhas e linhas, mas o que sugiro é o seguinte: aumente uma hora no horário de Campo Grande e perceba como ficarão mais semelhantes os horários (exceto pelo solstício de inverno que terá um nascer do sol um pouco tardio, o que é inevitável).

Afinal, porque nos mantemos a uma hora a menos de Brasília, quando uma hora a mais seria muito mais coincidente com a hora de trabalho dos sul-mato-grossenses? Até o Pará, que atinge maiores longitudes que nosso estado, já adaptou seu horário ao de Brasília.

Não haveria necessidade, inclusive, de horário de verão, que muitos acusam de ser prejudicial à saúde.

Em resumo (pra quem não entendeu nada): para mudar o fuso horário, precisamos analisar a questão geográfica de Mato Grosso do Sul. Assim fazendo, percebemos que nosso estado tem um sério deslocamento em relação ao horário de outras cidades do país. O sol nasce e se põe muito cedo. A solução é óbvia: aumentemos uma hora no relógio!

Por que não mudamos, então? É porque só os banqueiros e empresários vão lucrar? É por vontades políticas conflitantes? É porque o povo não quer?

Não sei. Ao que parece, ninguém analisou adequadamente a questão ainda. Entraves de toda sorte, sem nenhuma relevância, são levantados. Você, por exemplo, acabou de ler tudo isso e concluir que eu só o confundi ainda mais. Imagine quem não leu nada!

Esses, sim, estão confusos. Ou seria “com fuso”?

Confuso, não?

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 374 outros seguidores